Maio, Mês do Coração 2019

Tal como vem sendo hábito, durante o mês de Maio, as atenções para o coração redobram. Este ano a Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC) vai procurar através de várias iniciativas sensibilizar a população portuguesa para a importância da insuficiência cardíaca na saúde dos portugueses.

A frase chave desta vez será «Insuficiência cardíaca – Liberte o seu coração».

 

Infelizmente, apesar dos enormes progressos diagnósticos e terapêuticos, que têm ocorrido nas últimas décadas, as doenças cardiovasculares continuam a constituir a principal causa de doença, morte e custos em saúde da população portuguesa.

 

A prevenção destas doenças deve assentar num estilo de vida que inclua uma alimentação saudável, atividade física regular e uma vida sem tabaco, o que por si só pode evitar a grande maioria de eventos agudos cardiovasculares, como o enfarte do miocárdio e o acidente vascular cerebral.

 

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em todas as regiões do mundo, exceto na África Subsaariana. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 1 bilião de pessoas tem excesso de peso ou são obesas, e estima-se que 60% da população mundial seja fisicamente pouco ativa ou inativa. Cerca de 700 milhões são hipertensos, a maior parte dos quais, não estão diagnosticados, tratados ou controlados. Presentemente, 150 milhões de indivíduos são diabéticos e este número irá duplicar até 2025. O número de fumadores é superior aos 500 milhões e estima-se que, no período de 2000 a 2025, morrerão cerca de 150 milhões de indivíduos devido a complicações causadas pelo tabagismo.

 

Segundo a Organização Mundial de Saúde morrem todos os anos 17 milhões de indivíduos por causas cardiovasculares, dos quais sete milhões por enfarte do miocárdio e cinco milhões e meio por AVC. Um estudo do Banco Mundial de Saúde prevê que, pelo menos até ao ano 2030 a patologia cardiovascular continue a ser a principal causa de doença, de morte e de incapacidade a nível mundial.

 

A insuficiência cardíaca é uma doença grave que afeta cerca de 400,000 portugueses, mais de 15 milhões em toda a Europa e está em franco aumento. É já hoje a principal causa de internamento hospitalar dos indivíduos com mais de 65 anos, prevendo-se que venha a atingir um em cada 5 portugueses. Os principais motivos que estão a levar a este aumento são o envelhecimento da população, com as suas doenças associadas, como a hipertensão arterial e a epidemia de obesidade, que afeta negativamente todos os outros fatores de risco cardiovasculares e uma maior sobrevivência aos episódios agudos, como o enfarte do miocárdio.

 

O prognóstico da insuficiência cardíaca é sombrio, na medida em que somente cerca de metade dos doentes estão vivos cinco anos após o diagnóstico. A insuficiência cardíaca é responsável por 2 a 3 vezes mais mortes do que o cancro da mama e o cancro do cólon. Felizmente, o prognóstico tem melhorado muito, nos últimos anos, graças aos progressos no tratamento farmacológico e ao desenvolvimento de novos dispositivos médicos para apoio do coração.

 

Na insuficiência cardíaca o coração fica mais fraco, ou seja, tem menos força para fazer o sangue (que contém o oxigénio e os nutrientes), chegar aos diferentes órgãos e sistemas, em quantidade adequada para satisfazer as necessidades do organismo.

Para compensar, nuns casos, o coração dilata-se, noutros casos as paredes do ventrículo esquerdo tornam-se progressivamente mais espessas (aumenta a massa muscular) para ganhar força para impulsionar mais sangue. Estas alterações compensatórias ajudam durante algum tempo, mas progressivamente o músculo cardíaco vai-se degradando e perdendo a força.

Também os rins desempenham um papel importante nos mecanismos de compensação da insuficiência cardíaca, ao reter líquidos, sob a forma de água e sal, que ao aumentar o volume circulante, vão estimular o coração.

Com o tempo e o degradar da situação, os líquidos vão-se acumulando nos tornozelos, nas pernas, no fígado, nos pulmões, e por fim em todo o corpo, causando inchaço, falta de ar, cansaço e aumento de peso.

 

Por vezes, as pessoas, em especial as mais idosas e os próprios médicos, não valorizam os sintomas de insuficiência cardíaca que são essencialmente a fadiga, a falta de ar e o inchaço das pernas. A tendência é para atribuir estas queixas ao processo de envelhecimento. Tal atitude resultante do desconhecimento ou até esquecimento desta patologia, leva ao atraso no diagnóstico e tratamento, com todos os inconvenientes inerentes, nomeadamente o risco de morte.

 

Apesar de alguns bons resultados obtidos em Portugal, é com frustração que reconhecemos que o controlo dos fatores de risco deveria ter melhorado um pouco mais nos últimos anos, o que se deve em grande medida ao facto dos fatores de risco serem essencialmente silenciosos. Por isso, tornam-se necessárias campanhas preventivas mais agressivas e melhor dirigidas. É imperioso aumentar os níveis de diagnóstico e de controlo.

 

A educação escolar deve dar maior relevo ao ensino de estilos de vida saudáveis e a problemas como o colesterol elevado, a obesidade, a diabetes e a hipertensão, que no nosso país, pela grande frequência das complicações que originam, tem uma enorme importância no sofrimento e redução da esperança de vida da população.

 

Por outro lado, não podemos perder de vista que a elevada prevalência dos fatores de risco é em grande medida de causa ambiental e de estilo de vida. A urbanização crescente da nossa sociedade, com um estilo de vida em que predomina o sedentarismo e uma alimentação demasiado rica em calorias, gordura animal e sal tem conduzido a epidemias de hipertensão, colesterol elevado, obesidade e diabetes.

 

A Fundação, no seu compromisso com a promoção da saúde e a prevenção das doenças cardiovasculares, aconselha um regime alimentar variado, característico da

 

Dieta Mediterrânica, que numerosos estudos confirmaram ter efeitos benéficos para a saúde e que ainda se pratica em Portugal, embora esteja em rápida adulteração. Esta dieta caracterizada por um padrão alimentar único, rico em hortaliças, fruta, pão e cereais, peixe, carne de aves, azeite e vinho às refeições, deve ser revitalizada para se adaptar aos tempos modernos. Como já referimos, a prioridade deve ser dada às crianças, nomeadamente com o estabelecimento de programas de educação alimentar e de um serviço de refeições saudáveis nas cantinas escolares.

 

Uma palavra ainda para o sedentarismo ou inatividade física, o fator de risco cardiovascular mais prevalente na sociedade portuguesa, tendo aliás um estudo promovido pela União Europeia verificado que somos o país com menores índices de atividade física.

 

Para que a população se envolva numa prática física regular, a grande barreira a vencer é falta de instalações adequadas e em número insuficiente nas nossas cidades e vilas. É preciso realizar com a ajuda de todos, particularmente, das Autarquias, uma verdadeira revolução sociocultural que mude o desporto de uma atividade competitiva, praticada por um punhado de jovens atletas e com uma multidão sentada a assistir, para atividades com a participação de toda a comunidade, particularmente a população que vive num ambiente urbano. Mais tempo para atividades desportivas nas escolas, acesso a pistas de marcha e de ciclismo, espaços verdes com instalações de recreio e desportivas são necessidades imperativas da nossa comunidade.

 

Segundo a OMS cada indivíduo deve participar nas decisões que lhe dizem respeito, tornando-se deste modo responsável pela sua própria saúde. Face à situação atual, a FPC apela a que todos coloquem a sua saúde, nas prioridades da sua vida pessoal, adotando estilos de vida saudáveis. Só deste modo será possível alcançar o importante objetivo de melhorar a saúde e qualidade de vida dos nossos concidadãos.

 

Prof. Doutor Manuel Carrageta

Presidente da FPC

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